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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Residencial Ulysses Guimarães - Belém, Pará (1997)

A má distribuição da renda, característica de países do terceiro mundo como o Brasil, provoca desequilíbrios de natureza diversa, dentre os quais o déficit habitacional aparece como um dos mais sérios problemas enfrentados pela população. Estima-se que haja um débito de mais de 15 milhões de unidades, o que coloca aproximadamente 75 milhões de pessoas morando sob condições abaixo de qualquer padrão internacional mínimo de habitabilidade. Infelizmente, no Brasil, esse problema não tem recebido as devidas atenções oficiais, pois a evolução dos números acima citados denotam um agravamento progressivo da questão da moradia. Essa piora do quadro, entretanto, não se deve à carência de idéias ou de soluções técnicas para o assunto, pois existe farta bibliografia de propostas de atuação para esse problema. As maiores dificuldades estão no descaso do poder político, responsável pela implementação de planos nesse sentido, o qual não tem priorizado a habitação em suas metas de governo.
A construção do Conjunto Habitacional Ulysses Guimarães, portanto, vem ao encontro das necessidades da população (ou de significativa parcela dela), e constitui-se em iniciativa que deveria ser atividade cotidiana da administração pública e não episódica como se tem apresentado.
A proposta que ora apresentamos para as habitações a serem erigidas na área em questão tem como objetivo fundamental a alocação do maior número possível de famílias, em unidades que apresentem aceitáveis condições de habitabilidade e que possam ser produzidas a um custo que permita suas comercializações a preços compatíveis com o poder aquisitivo da faixa de mercado a que se destinam.

TIPOLOGIA ADOTADA

A COHAB sugeriu no edital publicado que as habitações fossem distribuídas em blocos de três pavimentos, podendo os térreos serem ocupados em no máximo 50% para unidades também. Essa tipologia permite que se busque adensamento, a partir da verticalização das habitações, sem aumento excessivo dos custos de execução. A colocação de apartamentos no térreo, apesar de se constituir em obstáculos à passagem dos ventos pelo “efeito pilotis” e prejudicar a privacidade das unidades térreas, apresenta-se como única alternativa para atender à demanda das famílias que possuirem membros com limitações físicas que os impeça de subir escadas.
A distribuição dos apartamentos em cada pavimento foi solucionada tomando como referência os partidos das unidades habitacionais dos bairros operários das cidades industriais européias, desenvolvidas nos meados do Séc. XIX. Esse período, denominado por alguns autores de “Segunda Revolução Industrial”, caracterizou-se, entre outras coisas, pelo adensamento da população operária em bairros específicos, em edificações projetadas para serem executadas ao mais baixo custo possível. O partido em planta desses edifícios era, em sua maioria, composto por uma escada para dois apartamentos em cada pavimento. As paredes laterais eram cegas (sem aberturas) para permitir a repetição desse conjunto de acordo com a necessidade, compondo blocos lineares. Cabe ressaltar que a busca excessiva pela economia nessas unidades acabou produzindo unidades que, apesar de possuirem partido nesse sentido correto, apresentavam áreas muito pequenas tornando os apartamentos, em alguns casos, quase inabitáveis.

Figura 1 - As casas operárias apresentadas na Exposição Universal de Paris de 1878; as casas operárias-modelo realizadas em Pancras Road, Londres, em 1848. Fonte - História da Cidade (Leonardo Benevolo)

Cem anos mais tarde, o princípio compositivo do “dois por andar” foi recuperado e otimizado pelos arquitetos cubanos nos conjuntos habitacionais erigidos após a Revolução, os quais destinavam-se a abrigar grande parte da população que vivia em condições precárias por todas as cidades da ilha.
Conforme se observa, o partido adotado foi utilizado com sucesso em dois significativos momentos da história nos quais se precisou construir muito gastando pouco.
As vantagens do “dois por andar” utilizado não se restringem apenas à economia de área e, consequentemente, de custos de produção que o partido possibilita, já que eliminam-se os tradicionais e caros corredores para atingir às unidades. A distribuição “em fita” permite que se tenham todas as unidades voltadas para um só lado, orientando-se os blocos de acordo com as melhores possibilidades de captação de ventos e de proteção do sol. Além disso, as paredes laterais cegas permitem arranjos diferenciados e modulações múltiplas, compondo-se os blocos do tamanho que se necessitar.

PROCESSO CONSTRUTIVO E MATERIAIS UTILIZADOS

De acordo com a leitura das sondagens do terreno, não poderá ser utilizado o mesmo tipo de fundação para todas as edificações. Existem trechos da área que admitirão fundações diretas (sapatas) enquanto que outros neessitarão de soluções mais profundas (estacas). Sugere-se, entretanto, que esse assunto deva ser discutido mais detalhadamente no caso do projeto vir a ser aproveitado pela COHAB.
A estrutura dos blocos será convencional (pilar, viga e laje) em concreto armado até a primeira laje. A partir daí os apartamentos serão executados em alvenaria portante de tijolo cerâmico (dimensões 9 x 13 x 28 cm) assentes a “singelo”, a qual possuirá uma pequena percinta de coroamento para receber a laje, esta igualmente convencional. O pé direito foi dimensionado de forma a não necessitar de complementos na parte superior da alvenaria, os tradicionais “charutos”. As medidas em planta também obedecem a uma modulação de forma a minimizar as quebras dos tijolos e, consequentemente, evitar desperdícios de material. Não haverá laje de forro no último pavimento, sendo sua alvenaria “respaldada” apenas com a percinta. Os volumes das escadas, os quais abrigarão as caixas d’água em suas parte superiores serão cobertos por pequenas lajes impermeabilizadas. Essas caixas (7.000 litros) serão em fibra de vidro e ficarão suspensas por estruturas de madeira.
Durante a fase de concepção do projeto chegou-se a ventilar a hipótese da utilização de sistemas estruturais alternativos (alvenaria de blocos de cimento, por exemplo) e, a princípio, mais baratos. Entretanto concluiu-se que o porte da construção desse conjunto não justificaria a adoção de outro sistema que não o convencional, de vez que os custos de implantação de outro processo construtivo (usinagem “in loco” e treinamento de mão de obra) seria percentualmente elevado em relação ao custo global do empreendimento.
A cobertura será em telhas de barro estruturadas em madeira, não apenas pelo seu desempenho térmico, mas também pelo objetivo estético que se busca nesse projeto.
As esquadrias externas serão metálicas, sugerindo-se a marca Sassazaki em função de seu custo e de sua durabilidade. Os quartos e salas possuirão uma esquadria de 1,20 x 1,20 com duas folhas em venezianas. Os banheiros receberão um balancin basculante com vidro medindo 0,60 x 0,60. As cozinhas terão um balancin com as mesmas características do utilizado nos banheiros, mas com medidas de 1,20 x 0,60. Já as áreas de serviço, a princípio, terão apenas um vão de 1,20 x 0,60, podendo receber esquadria idêntica à das cozinhas, se a COHAB assim determinar. As portas e esquadrias das áreas condominiais (portaria e lixo) serão igualmente metálicas, do mesmo fabricante sugerido acima. Com relação às portas internas e externas das unidades, serão utilizadas portas em madeira do tipo Eucatex com ferragens tipo Fama ou outro conjunto similar. Na abertura para ventilação e iluminação da escada será utilizado o “tijolo de boca”, impermeabilizado com produto a base de silicone.
Para os revestimentos internos sugere-se o azulejo para as áreas molhadas e o reboco paulista com pintura PVA para os demais ambientes. Todos os pisos receberão lajotas cerâmicas, com exceção do play-ground coberto no térreo, o qual será cimentado com juntas plásticas. Os forros (onde houver necessidade) serão todos em madeira, sendo o gesso ou o PVC opções alternativas. O revestimento externo dos blocos será em reboco paulista pintados com tinta PVA para exteriores, conforme sugestão da COHAB. Esse reboco, conforme expresso em projeto, terá ranhuras que funcionarão como dilatações para retardar o quase inevitável processo de rachadura supeficial desse tipo de revestimento.

IMPLANTAÇÃO E URBANIZAÇÃO

O partido em planta, conforme já se mencionou, permitiu arranjos diversos e composição de blocos de tamanhos variados. Essa irregularidade de tamanho dos blocos foi estratégia para se tentar garantir a penetração dos ventos por toda a extensão do conjunto. Procurou-se implantar os blocos de menor tamanho nas extremidades do terreno voltadas para os sentidos das dominantes da ventilação, para que esta pudesse passar pelos espaços entre eles e atingir os outros blocos no interior do conjunto, blocos esses de maior extensão. Também se procurou liberar os pilotis dos blocos menores igualmente para facilitar a penetração dos ventos.
A orientação dos blocos sugerida pela COHAB foi seguida à risca pelo projeto, variando-se o eixo longitudinal de 20 a 30 graus em relação ao eixo LESTE-OESTE, tanto no sentido horário como no anti-horário. Essa variação de direção não apenas possibilitou satisfatória ventilação nas diversas dominantes do conjunto como um todo, com os blocos podendo receber ventilação através das duas fachadas longitudinais, como, também, proteger as áreas teoricamente mais nobres (salas e quartos) da insolação vespertina. A variação do posicionamento dos blocos, entretanto, não se deveu apenas a questões de conforto ambiental. Também utilizou-se a rotação dos blocos como forma de conseguir o maior número possível de unidades sem prejudicar as condições de habitabilidade (privacidade, salubridade, etc.). Além disso, procurou-se reduzir a extensão de áreas pavimentadas ao mínimo como forma de economia de custos e de maximização das áreas verdes.
A utilização de blocos de tamanhos variados implantados sob orientações diferentes contempla a possibilidade de mudar a imagem dos conjuntos habitacionais tradicionais. A idéia de padronização de unidades implantadas uniformemente por eles consolidadas sob justificativas econômicas e até mesmo conceituais, conduz ao anonimato individual ou coletivo historicamente rejeitado pelo homem. Portanto a proposta apresentada objetiva, a exemplo de diversas outras experiências já existentes, criar um conjunto que possa ser lido como um lugar com identidade própria, e que possua lugares também identificáveis dentro de si.
Além das ruas (todas com 6,00 m. de leito carroçável e calçadas de 1,20 m.) e dos edificios, podemos destacar três elementos urbanos existentes no conjunto: a praça, o parque e a área de lazer. A praça, normalmente lançada em espaços residuais nos tradicionais conjuntos, foi posicionada na frente do conjunto para ser um elemento de integração entre este e a rua. Atuará como marco dos acessos a essa área e sua localização possibilitará que seja frequentada por habitantes não apenas dos novos blocos, mas, também, de toda a redondeza, o que garantirá permanente vitalidade a esse espaço. O parque foi posicionado mais para o interior do conjunto já que se destina ao público infantil. Ficará “escudado” por dois blocos e por duas vias locais, assegurando proteção às crianças que dele se utilizem. A área de lazer será composta basicamente por um campo de futebol, uma quadra polivalente e duas quadras de vôlei e será lançada nos fundos do terreno. Esse posicionamento tem como justificativa não apenas a tentativa de isolar essa área a qual constitui-se, inevitavelmente, fonte de poluição sonora, como também afastar ao máximo os blocos habitacionais do Colégio Madre Celeste (vizinho dos fundos), para que não haja incomodações recíprocas.
Não se julgou necessária a alocação de áreas para outros equipamentos como comércio e serviços, por exemplo, pois, conforme constatado no local, a área em questão é bastante rica em equipamentos não apenas dessa natureza como de ouras também. Estão sendo apresentadas duas formas de urbanização: a OPÇÃO 1, que não prevê aberturas do conjunto para a via lateral existente, possibilitando até um eventual fechamento dos blocos em condomínio, e a OPÇÃO 2, a qual estabelece 2 pontos de acesso laterais para o novo conjunto. Ficará a critério da COHAB a resolução de qual das alternativas seria mais interessante para o empreendimento.
A parte de urbanização terá como materiais básicos o asfalto para as vias (tendo como opção os blocos de cimento), o piso cimentado para as calçadas e placas de argamassa ou de concreto pré-moldado para os caminhamentos.

ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Até o presente momento a COSANPA não respondeu ao nosso questionamento se conseguirá atender à nova demanda quando o conjunto estiver concluído. Se a resposta for afirmativa, deverá ser construída uma caixa d’água com capacidade para 125.000 litros e uma cisterna para 60.000 litros. Se a resposta for negativa, dever-se-á perfurar um poço artesiano para alimentar o referido reservatório elevado, dispensando-se a cisterna. Essa caixa atenderá a todo o conjunto e será localizada no ponto de cota mais elevada do terreno (próxima à área de lazer) para facilitar o abastecimento dos blocos.
Além desse castelo d’água, cada bloco possuirá seus reservatórios próprios, devendo os mesmos ser posicionados no alto do volume das escadas, atendendo, portanto, a dois apartamentos por pavimento. Esses reservatórios possuirão 7.000 litros cada, devendo ser em fibra de vidro e suspensos, como já se mencionou, por estruturas de madeira. Suas bombas de recalque ficarão sob o primeiro patamar da escada.
As caixas de incêndio ficarão, como manda a norma, no hall das escadas e a pressão na mangueira do 3o. pavimento será garantida por uma bomba. Por motivos econômicos e estéticos, decidiu-se posicionar a caixa d’água abaixo da altura normativa para que se atinja a pressão adequada na referida caixa de incêndio, daí a necessidade do uso da bomba.
As colunas de água fria, bem como as descidas de esgoto ficarão nos cantos das paredes a serem definidas posteriormente.
ESGOTAMENTO PLUVIAL E SANITÁRIO

Toda a rede de esgoto será canalizada para a vala existente no terreno. Evidentemente essa vala será tubulada (dois tubos de 1,20 m. ou de 1,00 m.) e retificada, passando a posicionar-se na lateral do terreno que confina com a área da marinha. Será executada uma rede interna de esgoto, para conduzir o efluente até uma estação de tratamento posicionada na frente do conjunto, estação essa dotada de filtros anaeróbicos que prepararão o material a ser despejado na vala tubulada. Essa vala será ligada diretamente à tubulação que despeja no canal da macrodrenagem da cidade, o qual chega até o outro lado da Rodovia Augusto Montenegro.
A pesquisa feita na rede de esgoto existente no conjunto ao lado desaconselhou o seu uso, de vez que o diâmetro das tubulações não aguentaria a nova demanda e a estação elevatória encontra-se desativada.

ABASTECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA E REDE DE TELEFONES

O abastecimento de energia elétrica será convencional, com o posteamento em concreto acompanhando as vias do conjunto, havendo transformadores e iluminação pública onde houver necessidade. Cada conjunto de escadas será, para efeitos de abastecimento, considerado como um bloco, havendo, dessa forma, padrão de entrada e medidores em cada portaria.
Com relação à rede de telefones, serão utilizados os postes de iluminação, com os armários posicionados onde houver necessidade.

DISTRIBUIÇÃO DAS UNIDADES E ESTIMATIVA DE CUSTOS

Foram alocadas na área fornecida um total de 204 unidades, distribuídas da seguinte forma:

- 58 unidades de 3 quartos com área útil de 52,40 m2 (28,43%)
- 100 unidades de 2 quartos com área útil de 43,21 m2 (49,01%)
- 46 unidades de 1 quarto com área útil de 31,46 m2 (22,56%)

Os condomínios deverão der formados tomando-se como referência a escada, ou seja devem ser considerados como ambientes de cada bloco uma portaria, um depósito de lixo, a escada, e as unidades habitacionais por ela servidas. Nos blocos onde houver mais de uma escada deverão ser considerados como conjunto de blocos geminados. Todos os estacionamentos serão externos, o que libera o térreo das edificações não apenas para o lazer, como também para o adensamento do conjunto, se assim a COHAB decidir.

A área total construída será de 14.410,44 m2.
A área total projetada será de 3.602,61 m2.
O índice de ocupação alcançado foi de 0,14.
O índice de aproveitamento chegou a 0,58.

O custo estimado para o metro quadrado das edificações é de R$ 258,15 (extraído da revista CONSTRUÇÃO NORTE-NORDESTE, Editora Pini, edição de setembro de 1996).

PLANO DE TRABALHO E EQUIPE TÉCNICA

No caso do projeto aqui apresentado ser o escolhido para execução, o projeto executivo será entregue à COHAB em um prazo máximo de 40 (quarenta dias) a contar da emissão da ordem de serviço. A equipe de trabalho será composta pelos arquitetos José Maria Coelho Bassalo (CREA 5934-D PA) e Alexandre Câmara Dantas (CREA 9354-D PA). Os demais profissionais envolvidos ainda não estão definidos.

Todos os aspectos que foram omitidos nesse memorial devem-se a eventuais esquecimentos ou ao fato de fazerem parte de um grupo de itens os quais podem ser discutidos posteriormente, no caso da COHAB utilizar esse projeto. A esses aspectos podem-se juntar, também, questões como desenho das fachadas (cores, etc.) e as especificações de revestimentos aqui apresentados como sugestão, mas que podem ser substituídos se a COHAB assim determinar.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Estação de Pesquisas Científicas Ferreira Penna - Floresta Nacional de Caxiuanã, Pará (1990)

A tarefa de planejar espaços, em local de difícil e demorado acesso, destinados a abrigar determinadas famílias (por significativos ou não intervalos de tempo) levanta algumas questões arquitetônicas não muito frequentes em projetos para meios urbanos.

Ao elaborar o ante-projeto da base física da "Estação de Pesquisas Ferreira Penna", as referidas questões incomuns como, por exemplo, as condições sociais do cotidiano dos pesquisadores e de suas respectivas famílias, e a solução de como otimizar o processo de construção dessa edificação, foram objeto de enorme preocupação de nossa equipe e condicionaram, sobremaneira, o resultado final da proposta apresentada.

O complexo arquitetônico foi concebido para evitar ao máximo que seus moradores/usuários sentissem o que representa o isolamento e a monotonia de viver, ainda que somente por determinados períodos de tempo, em um espaço restrito, o qual tem que ser dividido no dia-a-dia com o mesmo círculo de pessoas. Muito embora dotada de eficiente sistema de comunicações, com possantes antenas possibilitando que o rádio e a televisao, por exemplo, ajudem a quebrar a solidão da floresta, a solução do partido geral contribuiu bastante para amenizar esse problema.

A base da Estação de Pesquisas foi planejada de forma a fugir da composição compacta, economizadora de áreas, dos espaços rigorosamente projetados para evitar desperdícios, solução essa que, a nosso ver, oprime o seu usuario transformando-o em apenas uma peça de "uma perfeita máquina de morar/trabalhar".

A implantação dos blocos da proposta apresentada foi cuidadosamente pensada para que sua disposição proporcionasse simultaneamente a integração e a individualidade de seus edifícios componentes, fazendo com que o deslocamento do usuário no interior do complexo se tornasse um exercício sempre novo, no qual houvesse uma grande variedade de ângulos visuais a serem fruídos e/ou descobertos, minimizando, assim, o tédio de viver em um espaço delimitado. É necessário destacar, porém, que apesar dos blocos se posicionarem de maneira a garantir suas individualidades, a proposta não os dispersa pelo terreno disponível, o que criaria longas circulações e consequente mau funcionamento do conjunto.

A utilização de cores fortes (azul e amarelo) na pintura de alguns detalhes construtivos das edificações, as destacará do imenso e nativo verde, o qual funcionará como pano de fundo e que será mais um fator de alteração tão relevante do ritmo visual e porque nao dizer, do ritmo vital.

A localização da Estação de Pesquisas isolada na Floresta de Caxiuanã, levou-nos a propor soluções de construção que possibilitassem uma execução ágil dos serviços que irão ser desenvolvidos, já que toda uma estrutura de pessoal (técnicos, trabalhadores, etc.), isto é, de apoio logístico, será deslocada para residir no canteiro de obras, elevando sensivelmente, o custo final da edificação. Dessa forma, optou-se por utilizar, dentro dos limites possíveis, as facilidades executivas dos sistemas pré-fabricados, tanto na estrutura, com a adoção de todos os pisos (sejam no nível térreo ou no superior) em lajes pré-moldadas, como em alguns fechamentos verticais, empregando-se, nesses, esquadrias pré-montadas em PVC.

A utilização em todo o complexo dos pisos pré-fabricados deve-se, além do motivo já mencionado, a mais dois outros importantes fatores: 1o) Ao excesso de umidade constatado no piso natural - as referidas lajes serão montadas (nos niveis térreos inclusive nas passarelas cobertas) a 50 cm de altura do solo sobre baldrames em concreto ciclópico, protegendo, assim, as edificações das infiltrações oriundas do terreno; 2o) A uma questao de simbologia dos edifícios. Esse último aspecto sera abordado posteriormente.

A presença do PVC na proposta apresentada, não só nas esquadrias mas, também, nos forros, foi resultado da necessidade de prolongar ao máximo (e com a menor manutenção possível) o tempo de vida útil de todos os aspectos dos prédios, como a estrutura, as instalações, os revestimentos internos e externos e até mesmo o mobiliário.

O aspecto mais importance que norteou, entretanto, a concepção do conjunto foi a simbologia do mesmo, ou seja, a mensagem que ele, conjunto, deve expressar. Sua significação não está contida na forma de seus blocos, pois estes não apresentam nada inovador. Suas varandas, circulações e coberturas de 2 ou 4 águas compostas por telhas de barro são semelhantes às de diversos prédios encontrados em nossa região. A identidade da edificação está presente não apenas em seu partido geral, onde o princípio indígena de dispor as construções ao redor de um espaço de uso comunitário se materializa na proposta apresentada, como também no processo construtivo e na escolha dos materials a serem empregados. O concreto armado será utilizado apenas nos pilares das edificações de dois pavimentos e na caixa d'água. Nas construções térreas, estes serão em tijolo maciço. A madeira, abundante em toda a regiao, será utilizada apenas na estrutura de sustentação da cobertura, pois a adoção da pré-fabricação no sistema de execução dispensa o uso de fôrmas e escoramentos e a utilização do PVC substituirá as tradicionais esquadrias e forros em madeira.

Vale ressaltar que, intencionalmente, não utilizamos cavaco para a cobertura dos blocos (o que seria ideal para o clima da região) de vez que sua utilização demandaria significativos custos de manutenção e implicaria, também, na destruição o patrimônio florestal, já tão criminosamente abatido. Dessa forma, a economia que ressaltamos, não é apenas gestual, mas reflete a imperiosa preservação fauna/flora, tão necessárias ao equilíbrio ecológico da região e do país.

As altas temperaturas características no local da edificação exigiram soluções que aproveitassem ao maximo a ventilação existente. Dessa forma, tanto o partido geral, implantado para que a grande maioria de seus blocos componentes pudesse receber diretamente os ventos dominantes, como a configuração geral dos prédios, projetados com coberturas dotadas de exaustores de ar, longos beirais e aberturas generosas, compostas por sistema misto de venezianas e vidro, favorecem o bom condicionamento ambiental térmico exigido pelo clima adverso.

Objetivando reduzir ao máximo o percurso entre o trapiche de acesso (previamente locado pelo Museu Emílio Goeldi) e a recepção geral do complexo da Estação, o bloco da administração (bloco 01) - local onde a referida recepção foi projetada - foi implantado na parte centro-oriental do terreno disponível. Isso fez com que esse módulo, que também abriga o setor de coleções e de laboratórios, ficasse em poslção privilegiada em relação aos ventos dominantes, pois os recebe de frente, tanto na sua 1a. predominancia (nordeste) quanto na 2a. (norte). Além disso, sua configuração linear possibilita a exposição de praticamente todos os seus ambientes a ventilação direta, o que eleva as condições de conforto térmico do bloco em questão.

O bloco 02, quase que uma extensão do 01, por ser aquele que abrigará a oficina, a garagem e a casa de força , foi locado na extremidade direita do conjunto, pois os ruídos eventuais, provocados pelas atividades que ali serão desenvolvidas, poderiam, certamente, incomodar o restante da Estação.

O bloco 03, destinado aos alojamentos, repete, em planta, as linhas basicas do 01, rebatido sobre o eixo NO/SE da orientação do terreno. Apesar de haver edificações a sua frente, que, a princípio, bloqueariam a ventilação incidente sobre si, o referido bloco não é prejudicado nesse aspecto, pois além de ser desenvolvido em dois pavimentos (sendo o térreo destinado às redes de dormir e o superior às camas) e guardar razoável distância das construções do entorno, ele situa-se sobre um terreno de cota mais elevada, recebendo, assim, com facilidade, os ventos dominantes.

Ainda sobre o bloco 03, foram criadas, nos dois niveis, com guarda-corpos vazados, varandas contíguas aos alojamentos para dar maior amplitude aos espaços dos mesmos. No nível térreo, a divisão em duas partes do salão das redes resultou da intenção de reduzir o número de pessoas dormindo em um mesmo ambiente, ou de separá-los observando, certamente, suas próprias conveniências.

Implantado de maneira a ocupar o centro de todo o complexo, o pavilhão destinado a lazer/restaurante/serviços é o responsável pelo apoio a quase todas as atividades da Estação. Através dele passará a grande maioria dos fluxos de circulação existentes no conjunto. Apesar de não possuir a mesma forma linear dos blocos 01 e 03, o edifício em questão também desfruta de excelente posicionamento em relação aos ventos dominantes, pois tanto o restaurante quanto o salão de jogos (áreas de permanência mais prolongada) situam-se de frente para o nordeste. Na parte central de sua cobertura existe um exaustor que, além de promover a renovação do ar do ático, produz iluminação zenital da sala externa de estar. O espaço comunitário, bloco completamente aberto para múltiplos usos, também ficará integrado ao referido pavilhao.

O setor de estudos foi posicionado entre os blocos 01 e 03 com o objetivo de forçar a passagem diária dos usuários da Estação na frente da biblioteca, para estimular, ainda mais, a atividade de pesquisa bibliografica. É evidente que sua localizagao não é tao boa no que diz respeito a incidência dos ventos dominantes. Entretanto, não só a biblioteca (que precisa controlar o nivel de umidade para conservação de suas obras) mas também o auditório e a sala de computação necessitam de sistema de condicionamento de ar para funcionarem perfeitamente. O hall para exposições surgiu do alargamento da passarela que corta esse bloco ao meio, sendo iluminado zenitalmente por uma abertura no telhado semelhante à descrita no parágrafo anterior.

As residências dos auxiliares, do administrador e dos hóspedes, esta com 02 pavimentos, foram implantadas na extremidade esquerda do terreno, um pouco afastadas dos mencionados blocos, para que possuissem a privacidade e a individualidade que elas requerem. O afastamento existente entre essas construções permitirá que a ventilação incida livremente sobre elas e se beneficiem, devido ao posicionamento dos seus setores (social,,íntimo e serviço), varandas, salas e dormitórios, já que, apesar de diferentes em áreas e programas, as residências foram concebidas sob o mesmo critério de orientação. Suas coberturas, basicamente de 04 águas, possuem o mesmo exaustor de gases do atico para minimizar os ganhos térmicos no interior dessas habitações.

Finalmente, as residências dos vigilantes, projetadas na mesma linha das acima citadas, ainda nao estão com sua implantação decidida, conforme orientação do Museu Emílio Goeldi.